[pt] “As mãos sobre a cidade” – Como Milão se tornou a nova capital da ‘Ndrangheta

Breve introdução. A máfia na Itália do norte
Tem-se começado a duvidar do lugar comum, na Itália, de o fenómeno mafioso ser um problema que pertence só ao sul há pouquíssimo tempo – convicção alimentada por muitos dirigentes políticos do norte, locais e nacionais.
Desde o início dos anos Noventa, ramificações mafiosas (sobretudo da Camorra, da ’Ndrangheta e de Cosa Nostra) sob a forma de clãs ou famílias, têm-se penetrado no norte da Itália, atirados pelo tecido económico mais activo do que o do sul.
Nas regiões Emília-Romagna e Lombardia o enraizamento mafioso começa, embora lentamente, a ser reconhecido e estudado, graça sobretudo a alguns jornalistas e ás associações empenhadas em informar sobre este tema, como Libera e GOEL.
Aqui têm estabelecido importantes bases de negócios, seja criminosos (como o tráfico de droga, extorsões, usura – o empréstimo ilegal de dinheiro é cada vez mais frequente, numa altura de crise de liquidez) que aparentemente legais (nos sectores da construção, da restauração e da diversão, por exemplo, com o objectivo, entre os outros, da lavagem de dinheiro sujo); neste último caso, fundamental tem sido a ajuda de profissionais liberais (locais) coniventes. Longe da imagem “exótica” do mafioso com a espingarda e a “coppola”, o nucleão das organizações já são empresários e profissionais, muitas vezes membros de clãs que conseguiram diplomas e graduações.
A ’Ndrangheta é actualmente a organização criminosa mais forte, com uma estrutura militar e um controlo quase total em muitas áreas da região Calábria. A sua crescente potência tem origem nos proveitos do tráfico de cocaína, em décadas de relações directas com as máfias colombianas, e nos duráveis contactos com Salvatore Mancuso, o ex-leader da organização paramilitar AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia) de extrema-direita. Seu pai proveio da Calábria.

O livro
“Le mani sulla città” (As mãos sobre a cidade) é um livro escrito por dois jornalistas, Gianni Barbacetto e Davide Milosa, do diário italiano “Il fatto quotidiano”. Este livro explora um dos pontos mais escuros na história recente da Itália: a infiltração da organização mafiosa ’Ndrangheta na Itália do norte em geral e em Milão.
A máfia na Itália, fenómeno que tem as suas raízes no sul da península, desenvolveu-se em quatro principais organizações criminosas, divididas em base regional: Cosa Nostra nasceu em Sicília, a ’Ndrangheta em Calábria, a Camorra em Campania e a Sacra Corona Unita em Pulha.

A estrutura da ’Ndrangheta é diferente da estrutura das outras máfias italianas. Espelhando as organizações criminais da América Latina, parece mais semelhante a um cartel ou a uma particular tipologia de federação de clãs. Grupos de famílias trabalham juntos e utilizam empresas controladas sobre uma área geográfica mais ou menos ampla, mostrando um elevado grau de autonomia militar e financeira. Eles seguem um código de conduta (uma “ética de empresa”) que provem das suas raízes compartilhadas: aderência à tradição, respeito e lealdade. A ’Ndrangheta conseguiu rapidamente controlar a rota da cocaína de melhor qualidade que chega à Itália; o capital financeiro acumulado tem-se integrado com facilidade na economia formal do país. Para os dois jornalistas, Milão, a capital italiana dos negócios, tornou-se também a nova capital da ’Ndrangheta.

Alguns números esclarecem a importância do fenómeno. O jornalista mexicano Rodriguez tem sublinhado que os proveitos da ’Ndrangheta em 2007-2008, 44 biliões de euros, correspondem à soma dos proveitos de quatros cartéis mexicanos (o Sinaloa, o Juárez, o Tijuana e o Golfo). Até os mais notórios traficantes de droga, como o colombiano Pablo Escobar ou o mexicano “El Chapo” Guzmán, nunca alcançaram proveitos como os da ’Ndrangheta: esta é mesmo uma empresa criminal com os proveitos duma corporação multinacional, e mais da metade deste dinheiro provem do tráfico de droga. Nos anos 2007/2008 o consumo de cocaína em Milão subiu 40%. Hoje, uma em cada seis pessoas em Milão costuma cheirar cocaína, num mercado que não conhece crise.

Barbacetto e Milosa mostram como “i picciotti” (os membros da ‘Ndrangheta) têm alcançado Milão e têm dado começo ao business com uma rede de “amigos” que provinham da rica burguesia da cidade. Os autores explicam como “i picciotti” construíram relações com as administrações locais, conseguindo contratos públicos em troca de votos em favor das campanhas eleitorais da coligação de centro-direita guiada pelo PDL (Povo da Liberdade). O livro reporta os nomes de importantes políticos investigados pela procuradora de Milão Ilda Bocassini e pelos magistrados anti-máfia. Nesta lista foram inclusos o ex-ministro da Defesa Ignazio La Russa e membros da sua família, e também Marcello Dell’Utri, membro do partido Forza Italia (o antecedente do PDL). Dell’Utri foi em seguida condenado a sete anos de prisão por ligações com a máfia, mas não foi encontrada nenhuma evidência para incriminar La Russa.

O livro sublinha como o precedente prefeito de Milão, Letizia Moratti, com o actual presidente da região Lombardia Roberto Formigoni (os dois estão no PDL) têm sempre negado oficialmente a infiltração da máfia e o seu enraizamento, considerando a presencia de expoentes da criminalidade organizada simplesmente como não sistémica. Os procuradores anti-máfia consideram estas declarações, que subestimam a gravidade do fenómeno, potencialmente perigosas por de algum modo favorecerem as condições da infiltração. Na verdade, estas organizações não apontam a se tornarem substitutos dos poderes institucionais ou a controlarem os existentes. Pelo contrário, eles mesmos preferem ingressar nos ambientes políticos e económicos. Fundamentalmente, estas organizações criminais estão interessadas em proveitos e dão-se bem com outros empresários sem escrúpulos; os quais não têm ligações com grupos armados, mas precisam de capital. Esta situação permite às organizações mafiosas entrarem silenciosamente nas estruturas económicas e financeiras duma cidade como Milão. Alguns exemplos: o confirmado envolvimento da ’Ndrangheta nos trabalhos de construção das linhas ferroviárias de alta velocidade (TAV) em Lombardia e da autoestrada Milão-Veneza, e também nos contratos públicos para a Exposição Universal de Milão 2015. Todos estes exemplos são bem relatados no livro.

A recente eleição de Giuliano Pisapia, do partido Esquerda Ecologia e Liberdade (SEL), como prefeito de Milão parece ter mudado a atitude institucional no que diz respeito à situação. Agora o Conselho Municipal tem uma comissão anti-máfia interna, que responderá politicamente a esta nova emergência. A 13 de Fevereiro 2012, à presença do Ministro do Interior Cancellieri, a comissão aprovou um protocolo anti-máfia. Este protocolo dispõe critérios rigorosos para as empresas privadas que apresentam pedidos de participação aos contratos de construção e modernização de edifícios para a Expo 2015. Os critérios miram em melhorar os controles sobre empresas para evitar qualquer infiltração mafiosa nos contratos públicos. Mas o Comité “Não Expo 2015” acredita estas medidas não serem suficientes para conter a possibilidade da ’Ndrangheta obter fundos públicos. Os activistas do comité afirmam que nas alturas de recessão económica, como a em que nos encontramos, a “fome de capital” traz também ao enfraquecimento dos controles financeiros das empresas aparentemente “limpas”.

Contudo, no início de 2012, depois duma onda de frio que atingiu a Itália, o Conselho Municipal decidiu fornecer abrigo algumas noites para 40 sem-tecto no notório night-club “For a King”. Este clube foi aberto pela família Morabito no último andar dum edifício de propriedade duma empresa pública, a Sogemi, que controla o mercado da fruta e da verdura de Milão. O clube cedo tornou-se o símbolo da infiltração da ’Ndrangheta em Milão. O seu uso simbólico como abrigo para sem-tecto foi visto como o empenho pela administração local de combater a máfia.

Fontes:
[it] Rapporto di Libera “Mosaico di mafie e antimafie”
[es] Rodriguez C.,2009, Contacto en Italia: el pacto entre los Zetas y la ‘Ndrangheta, Debate, Ciudad de Mexico
[it] Barbacetto G., Milosa D., 2011, Le mani sulla citta’, Chiare Lettere Editore, Milano
[it] linkiesta.it
[it] Il Corriere della sera
[it] Il Fatto Quotidiano
[it] Notav.eu about ‘Ndrangheta in Piemonte

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